"Enfim, depois de anos de vida, decidi assumir. Só meu melhor amigo sabe. Ele diz, aliás, para eu não me importar com o que os outros irão dizer, mas isso é inevitável: penso todos os dias na reação da minha família. Sempre senti-me um tanto covarde, mas mas há certas coisas que devem ser contadas. Ah, mãe, desculpa se não correspondi às suas expectativas. Sei que sempre pensou que eu gostasse de uma coisa; gosto, porém, de outra completamente diferente. Meu pai convidando-me para jogar futebol e eu sempre recusando. Nunca podia sair com ele. Desculpe se te deixei chateado -sempre dizia que não tinha tempo. Estava sempre estudando, estudando, estudando. Queria, na verdade, estar com outras pessoas (mais experientes, se é que me entende). A cada dia me sinto pior. Sinto-me como se tivesse enganado a toda minha família durante todos esses anos. Já imagino os comentários. Aquela tia distante que nunca falava comigo, questionando a mim e aos meus pais como se tivesse convivido comigo durante anos: 'mas logo ele, quem poderia imaginar?'. Vovó, aos seus muitos anos de sabedoria e conservadorismo, argumentando que mudar assim era errado. Havia sido de uma maneira a vida inteira; como mudar uma opção de uma hora pra outra? Covardia. Mas não me sinto mais assim, como um fraco. Meus amigos (ah, o que seria de mim sem o meu grande amigo, amigo íntimo?), minha família -até mesmo os que sequer me ligam para parabenizar-me no dia... Que dia mesmo? Nem sabem. Sabem, ou acham que sabem, que não posso mudar, assumir um gosto diferente- precisam saber. Nem que seja de forma escrita, assim, sutilmente: decidi não cursar medicina, e ponto final."
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